Um dos erros mais frequentes na Declaração Aduaneira de Veículo (DAV) — e que atrasa a matriculação em semanas — é declarar o CO2 errado. A confusão entre WLTP, NEDC, valores baixos, altos e combinados afecta directamente o ISV, o IUC e a categoria fiscal do veículo.
Este artigo mostra como converter os valores WLTP alemães para o CO2 aceite pela Autoridade Tributária portuguesa em 2026.
WLTP vs NEDC — o que muda
Duas normas de medição de emissões coexistiram em Europa entre 2017 e 2020:
- NEDC (New European Driving Cycle): norma antiga, valores mais baixos (menos realistas). Válida em veículos matriculados até final 2018 (parcialmente até 2020).
- WLTP (Worldwide Harmonised Light Vehicles Test Procedure): norma actual desde 2018, valores mais altos (mais realistas). Obrigatória em novos desde 2019.
Um mesmo carro pode ter valor NEDC de 120 g/km e valor WLTP de 145 g/km — o mesmo motor, medido por métodos diferentes.
Qual valor usar na DAV portuguesa em 2026
A regra actual da Autoridade Tributária em 2026:
- Carros com data de primeira matrícula até Agosto 2018: usar valor NEDC como declarado no COC
- Carros com data de primeira matrícula Setembro 2018 – Dezembro 2020: usar valor NEDC correlacionado (valor NEDC calculado a partir de WLTP, aparece no COC como “NEDCcor”)
- Carros com data de primeira matrícula desde Janeiro 2021: usar valor WLTP directo
Ou seja: para carros modernos (pós-2021), usa-se WLTP directo. Para carros de transição (2018-2020), há valor específico “NEDCcor” no COC.
Como encontrar o valor no COC
O Certificado de Conformidade (COC) tem uma secção específica de emissões:
- Secção 46 (COC standard EU 2018+): “Emissions of CO2 (combined)”
- Para PHEV: valor “combined weighted” (misto ponderado, não só eléctrico)
- Para carros com dupla homologação: valores separados NEDC e WLTP; usar o correto conforme regra acima
Que valor CO2 usar em PHEV
Este é o campo onde há mais erros. Um PHEV pode ter no COC dois valores:
- CO2 “combined weighted” — ~25-50 g/km (o que a AT quer)
- CO2 “sustained” ou “charge-sustaining” — ~130-160 g/km (uso só gasolina)
Usar sempre o valor “combined weighted”. É o menor e é o oficialmente reconhecido para efeitos fiscais.
E quando o COC está incompleto ou perdido
Se não tem acesso ao COC (pediu ao fabricante e ainda não chegou), pode calcular estimativa aproximada:
- Consultar site do fabricante — modelos comuns têm ficha com CO2
- Consultar site da DGEG ou eurotax pela matrícula
- Se estimou, marcar como “provisório” na DAV e submeter valor definitivo quando COC chegar
Cuidado: a AT pode requalificar o ISV mais tarde se o valor estimado for muito diferente do valor real do COC. Melhor esperar pelo documento oficial.
Consequências de declarar CO2 errado
Declarar valor mais baixo que real
ISV pago é inferior ao devido. Se AT detectar (revisão do processo), emite liquidação adicional + juros de mora + eventual coima. Pior caso: matrícula pode ser cancelada até regularização.
Declarar valor mais alto que real
Paga ISV a mais. Pode pedir revisão e reembolso, mas exige pedido formal com prova (COC oficial) e demora meses.
Exemplo prático
BMW 530e 2020 (transição WLTP), COC mostra:
- CO2 WLTP combinado: 45 g/km (valor correto para AT)
- CO2 NEDC correlacionado: 41 g/km (também válido para carros pré-Jan 2021)
- CO2 gasolina puro (sem eléctrico): 149 g/km (não usar)
Declaração correcta em DAV: 41 g/km (NEDCcor por ter matrícula pré-2021). Se declarasse 149 g/km, o ISV seria 5x superior.
Perguntas frequentes
E se o COC não tem CO2 WLTP (só NEDC)?
Carros pré-Setembro 2018 têm só NEDC — é o correcto para AT. Sem problema.
Pode haver diferença entre valor CO2 no COC e no site do fabricante?
Sim, muitas vezes. O COC é o documento oficial e é o que a AT aceita. Site do fabricante pode ter valores de versões diferentes ou outros mercados.
PHEV com autonomia declarada >70 km tem benefício adicional?
Não directamente no ISV, mas o CO2 combinado é muito baixo por causa da autonomia. Um PHEV com 100 km autonomia eléctrica típicamente tem CO2 combinado de 18-25 g/km — beneficia máximo do desconto PHEV no ISV.
Passos práticos e checklist final
Depois de perceber o essencial, o próximo passo é traduzir a informação em acção concreta. A maioria das pessoas trava na fase de decisão por falta de uma lista clara do que fazer, por que ordem, e o que evitar. Este checklist resume tudo o que foi explicado.
- Definir o objectivo exacto: modelo, ano, quilómetros, orçamento máximo
- Pedir orçamento estimado a 2-3 importadores diferentes
- Comparar com o preço equivalente em stand nacional
- Verificar disponibilidade de peças e assistência da marca em Portugal
- Confirmar prazos realistas (5-8 semanas total é normal)
- Preparar documentação prévia: NIF, morada, comprovativo, dados bancários
- Reservar orçamento adicional para imprevistos (~5-10% do total)
A verificação prévia poupa dinheiro e tempo. Um importador experiente resolve dúvidas técnicas em minutos que sem apoio consumiriam dias de pesquisa online.
Onde procurar mais informação
Além deste guia, vale a pena consultar fontes oficiais para dados actualizados:
- Portal das Finanças — informação oficial sobre ISV, IUC, DAV e IVA
- IMT (Instituto da Mobilidade e Transportes) — regras de matrícula, homologação e inspecção
- DGEG — dados sobre eficiência energética e emissões
- ACAP — Associação Automóvel de Portugal, estatísticas de mercado
A EcoImport acompanha regularmente as actualizações destas entidades para manter os processos alinhados com a legislação em vigor. Se tem dúvidas específicas sobre o seu caso, fale connosco antes de avançar. Uma consulta breve pode evitar erros de milhares de euros.
Erros comuns que atrasam ou encarecem o processo
Ao longo dos anos, há padrões repetitivos nos erros que fazem a importação sair mais cara ou demorar semanas a mais do que deveria. Conhecê-los antes de começar poupa tempo e dinheiro real.
- Preencher documentação com valores estimados em vez de oficiais — a Autoridade Tributária cruza dados com o COC. Divergências geram pedidos de esclarecimento que atrasam 2-3 semanas.
- Não confirmar o COC antes de comprar o carro — pedidos ao fabricante podem demorar até 30 dias para alguns modelos raros. Sem COC, a matrícula fica parada.
- Escolher transportador só pelo preço mais baixo — carros danificados em trânsito são recorrentes com empresas sem seguro adequado. Diferença de 200-400€ face ao topo do mercado é insignificante face ao risco.
- Ignorar a Tabela D do ISV (idade) — carros mais antigos beneficiam de descontos progressivos que reduzem o imposto até 65% face à Tabela A. Este cálculo é feito automaticamente pela AT mas convém validar.
- Não pedir orçamento fechado ao importador — cotações vagas escondem custos adicionais que aparecem no fim. Preferir sempre proposta escrita com todos os componentes discriminados.
Como acompanhar o mercado ao longo do ano
Os preços na Alemanha oscilam ao longo do ano por razões previsíveis. Compradores atentos conseguem poupanças adicionais de 5-8% simplesmente comprando no período certo.
- Janeiro e Fevereiro: melhor época — stands alemães querem escoar stock do ano anterior antes das novas matrículas de Março
- Junho a Agosto: mercado quente, preços 4-6% acima da média anual
- Setembro e Outubro: nova geração de modelos entra no mercado, versões anteriores baixam
- Dezembro: stock final do ano, negócios agressivos em modelos com muitos meses no lote
Vale a pena começar a acompanhar preços 2-3 meses antes de decidir importar. Ferramentas como o histórico de preços do Mobile.de ajudam a identificar quando um determinado modelo está abaixo do preço médio dos últimos 6 meses.
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